domingo, 13 de setembro de 2009

Sobre os movimentos


Crucificado Pelo Sistemapor Adriano MoralisConforme dito na matéria de capa publicada em nossa edição 36, aqui estão os depoimentos dos entrevistados na íntegra e são eles Boka (Ratos de Porão, I Shot Cyrus, Pecúlio Discos), Clemente (Inocentes, Plebe Rude, ShowLivre), Demente (Phobia, Juventude Maldita, Rebel Music, Final Fight) e Alemão (Hangar 110). Confiram!
Como você vê o punk e qual a principal diferença de como ele é retratado pela mídia?Alemão: Música, é assim que vejo o punk rock, ao contrário da mídia que vê como um grupo de marginais, blá, blá blá....Clemente (foto de Gabriel Chiarastelli): A mídia generaliza, mistura tudo, não procura entender. É claro que existem punks violentos mas não são todos, é uma minoria. O punk cresceu, se diluiu, se subdividiu, mas até hoje é importante como música e comportamento, mas não acredito mais no movimento coeso, como era até o meio da década de 80. Mas o punk como um tipo de atitude.Demente: Vejo o punk como uma rebelião contra o que está errado na sociedade, contra os dogmas sociais que tentam desesperadamente nos empurrar. Ser punk é tomar consciência crítica à respeito do mundo ao seu redor e fazer algo para mudá-lo, não adianta guardar o conhecimento no bolso, a palavra-chave do punk é atitude e atitude nada mais é que assumir uma postura radical e também suas conseqüências. A mídia vende a imagem de arruaceiros drogados, sendo que isso é apenas a ponta do iceberg, há muitas visões e posturas diferentes e até conflitantes dentro do que se chama hoje punk. Boka: A mídia sempre explora as coisas que vão dar ibope, por exemplo tretas e bizarrices, nunca o lado produtivo ou positivo. Mas pensando bem, não pode ser positivo para ela porque algo que contesta o sistema, também vai contra a mídia maiorista, assim que me considero um inimigo da mídia que nunca vai falar bem do punk, e nem deve, se o fizer algo está errado...Quem é o culpado pela violência entre os jovens hoje em dia?Alemão (foto do Hangar 110 de Jozzu): Infelizmente a violência é um ingrediente das grandes cidades. É ingênuo aquele que acha que é problema de Terceiro Mundo, há poucos dias vimos torcedores se agredindo na Itália, na França os protestos também estão recheados de violência. Acho que os grandes culpados pela violência são os governantes que colocam a educação em último plano! Quem tem cultura e educação é mais ponderado, respeita a opinião alheia, tem como argumentar. Clemente: Acho que há um aumento da violência na sociedade em geral, e acho que essa nossa sociedade de consumo só preocupada com os valores materiais tem a ver com isso. Acho que todos nós temos um pouco de culpa, não posso falar que é só do governo, pois a violência cresceu em todas as classes sociais.Demente: Trate o povo como bicho e muitos se tornarão bichos... É uma mistura perigosa, falta de investimento público em educação, gente amontoada feito gado em ônibus e trens superlotados, falta de opções de lazer... fora a miséria e humilhação que qualquer pessoa que não vive em um condomínio de luxo e depende do Estado para qualquer coisa sofre, acho que a violência social no Brasil, não só entre a juventude, é bem baixa se levarmos em conta a vida de merda que a maioria leva.Boka: Acho que é um fenômeno social e comportamental da juventude, muitos gostam de treta e é isso, mas também existem muitas pessoas que não estão nessa de violência. Mas certamente a juventude, principalmente a de classe média, é totalmente “sem noção” de porra nenhuma, talvez uma falta de perspectiva e uma busca de identidade e auto-afirmação, levam jovens todos os dias a cometer atos de violência. Acho que isso já um lance de psicologia, não tenho como falar muito sobre isso.Existe um estereótipo de que o punk é vândalo, ignorante e violento. Na sua opinião até onde isso é verdade e qual o motivo desse estereótipo permanecer até os dias de hoje? Alemão: O grande problema é que grande parte dessas gangues de “punks” é formada por pessoas abandonadas pelo poder público. Os que estudaram o fizeram em escolas públicas sucateadas, pegaram o canudo mas não conseguem interpretar um pensamento, para eles é tudo na porrada. Na verdade não são punks, são pessoas que se vestem como punks. Quem gosta de música punk não tem tempo pra idiotices.Clemente: Sim! Se o estereótipo vende mais jornais e revistas, dá mais ibope (risos). É isso, como eu disse, existem punks de tudo quanto é tipo até os violentos, mas não se pode generalizar e passar a idéia de que um movimento tão importante seja confundido, com um encontro de gangues.Demente (foto retirada do site do Phobia): O primeiro passo para minar os grupos que protestam contra a ordem instituída é a difamação. Com o poder da mídia, é fácil pegar um caso isolado e difundi-lo incessantemente até que se torne uma verdade. Maçãs podres existem em qualquer lugar inclusive no movimento punk. O casal Hernandes tentou entrar nos EUA com dinheiro escondido na Bíblia, então todo crente é criminoso? O Pimenta Neves, que era editor do jornal O Estado de São Paulo foi lá e assassinou a namorada... isso quer dizer que todo jornalista é assassino e covarde? Aliás, ele nem está preso e mal se fala nisso, ele não é um vândalo violento também? A sociedade é classista e privilegia os ricos, isso é fato, como também é fato que ela condena os pobres e os opositores. O que os detentores do poder nesse país ganham dizendo a verdade sobre os punks, sobre movimentos de esquerda radical, sobre o MST e derivados, por exemplo? Nada! Por isso, enquanto o Brasil for dominado por uma minoria inescrupulosa e uma mídia mercenária e submissa ao capital, nada vai mudar.Boka: A verdade é que “punk” é um termo muito amplo e profanado, sem contar que várias coisas podem ser punk, não existe um modelo para isso. Muitos dizem que vandalismo, ignorância e violência não é punk e outros dizem que sim, é por isso que eu não gosto de me associar muito ao rótulo punk, já que não me vejo como um punk simplesmente. Existem muitas restrições com respeito ao punk e vou ter que buscar um novo modo pra justificar minhas atitudes e dizer: “eu faço assim, e assim é punk”, realmente estou fora deste contexto, não quero me auto-afirmar com nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário