domingo, 13 de setembro de 2009

Entrevistas


INOCENTES

Por Ricardo Cachorrão

Em 2009 comemoram-se 28 anos de Inocentes. O monstro nasceu no gueto (Vila Carolina, SP), independente, deu a cara a tapa, cresceu, virou ícone de toda uma geração, entrou numa major, ficou famoso, foi chamado de traidor do movimento, caiu no ostracismo, voltou a ser independente, teve várias ressurreições, sem nunca ter morrido de fato, e continua aí, firme, forte, quase trinta anos sem parar, e lançando um DVD ao vivo (Monstro Discos). Clemente é ícone de toda uma geração. Esbanja simplicidade, bom humor e carisma. Depois de tanto tempo tentando marcar uma entrevista, veio o gancho necessário: o lançamento de Som e Fúria, o esperado DVD ao vivo dos Inocentes, e o que se segue, é um papo franco, direto e divertido. Com vocês, Clemente Nascimento, o punk veio!O que pode ser dito além deste resumão básico? Era mais fácil ser inocente em 1981 ou em 2009? O que mudou neste tempo, além do cabelo que caiu? Conte aí a sua história!Poxa! Você já falou tudo (risos)! Mas acho mais fácil hoje, com certeza, não precisamos da grande mídia, a internet facilitou a vida, estamos em contato direto com a rapaziada, sem falar dos contratantes que hoje nos acham e por isso fomos tocar em Belém, Palmas, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Cuiabá, Florianópolis... ou seja estamos viajando muito mais e existe uma cena independente, muito bem estabelecida, ou seja, aquilo que batalhávamos no começo da carreira hoje é realidade. Uma discografia grande e muito legal como a de vocês (se não me engano, são 12 discos), não merecia estar em catálogo? O que acontece? Pois quem gostaria de ter os álbuns originais dos Inocentes, e não os comprou no lançamento, como eu fiz, não tem essa possibilidade.Nem me fale, mas esse é o problema de ter passado por vários selos, grandes e pequenos, são eles que detém os direitos, se eles não lançam, não temos o que fazer, o que vamos fazer é regravarmos uma boa parte do repertório, para uma coletânea que deve ser lançada no Chile, Argentina e Portugal e comercializar isso, pois dessa vez faremos apenas o licenciamento. De resto é reclamar com a Warner, a Abril Music (que não existe mais) a Paradoxx (que não existe mais) (risos)! Acabamos com um monte de gravadoras! (Risos) Lá no início e meio do movimento punk brasileiro, as bandas passavam a impressão de grande união, se cotizavam para lançar álbuns juntas (vide Grito Suburbano, O Começo do Fim do Mundo, Sub, Ataque Sonoro e muitas outras coletâneas). Essa união era real, ou só falsa impressão? Apenas artifício para superar falta de grana generalizada? As tretas conhecidas chegavam nas bandas? Ou era coisa apenas de ganguismo puro e simples? Como era seu relacionamento com as outras bandas naquela época? E hoje, como é o contato de gente como o Cólera, Ratos de Porão, Olho Seco, Garotos Podres, Restos de Nada e tantas outras bandas que cresceram juntas?O relacionamento era bom, e acho que continua, mas era verdadeira aquela união, mas não como num conto de fadas, é claro que tinha suas rusgas, mas sabíamos que éramos mais fortes juntos, depois quando cada um conseguiu seguir seu caminho sozinho, cada um tomou seu rumo. Mas estamos sempre nos encontrando por aí, fizemos no Kazebre, Inocentes, Garotos Podres e Ratos de Porão, que depois foi substituído pelo Cólera, e fizemos mais de uma vez e fizemos em Curitiba no final de 2008, a garotada vai ao delírio é bem legal. Mas relacionamento é sempre difícil, se já é na própria banda, imagine entre várias bandas e pessoas diferentes e que nem sempre convivem o tempo todo juntas. Antes de falarmos do DVD Som e Fúria, fale um pouco de outro DVD, do qual você teve grande participação, e que me passa a impressão de deu uma grande guinada no punk brasileiro: qual foi a importância e como foi toda a produção de Botinada - a origem do Punk no Brasil?A primeira importância é histórica, pois temos no Brasil poucos documentários, seja da Tropicália ou da Bossa Nova, imagine do punk. Acho que a guinada existiu por que as pessoas não se tocavam da importância que o punk brasileiro tinha dentro do rock nacional, e que influencia muita coisa até os dias de hoje, e no documentário as pessoas se tocam disso, quando comecei a tocar em 1978 com o Restos de Nada, não existia nada e nós construímos tudo na unha. Falando agora do DVD Som e Fúria, mas relembrando um pouco de história: me recordo de quando o Camisa de Vênus lançou seu derradeiro álbum pela Warner (Duplo Sentido - 1987). Naquela oportunidade, você foi convidado para participar do show de despedida da banda (o primeiro de muitas despedidas), no Ginásio do Ibirapuera, aqui em São Paulo, quando tocou Bete Morreu e o Marcelo Nova te apresentou ao público como "Este é Clemente, dos Inocentes... uma banda honesta!". E o que notamos ao assistir o seu DVD Som e Fúria é justamente isso, a honestidade da banda! Nada de super produção, nada de maquiagem, são os Inocentes no palco, simples e diretos, com direito aos erros, que outras bandas limariam da edição final (você esquecendo a letra de “Lisa” foi hilário, além das piadas durante a censurada “Franzino Costela”). Fale de como funcionou a produção deste trabalho. E como explicar que o Sex Noise liberou “Franzino Costela” e a gravadora vetou?Será que somos tão honestos? (Risos) Nossa, você lembrou desse show do Camisa?! Mas queríamos uma coisa simples, pois não acho que seria de verdade a gente se utilizar da produção de um grande festival para fazer isso, aliás tem muita gente que faz, até pusemos no DVD um show escondido é só clicar no menu em cima do pedal, é nosso show no Porão do Rock em Brasilia, palcão, gente pra caraca, mas e daí? Só espero que as pessoas entendam que foi opcional ter o público no mesmo nível que a gente, é uma forma de falarmos que nós os respeitamos.Quanto à liberação das músicas foi difícil, até as minhas próprias foi um parto, a maioria está editada na Warner, tive que interferir várias vezes. Quanto a "Franzino Costela", que é da banda carioca Sex Noise, não teve jeito, eram muitos autores e não achamos todos e a EMI se recusou a liberar, queria uma grana. "I Fought The Law", do Sonny Curtis, foi mais fácil, nós pagamos (risos)! Mas estava mais barato. Antes mesmo da gravação do DVD, vocês estavam preparando material inédito, inclusive com download liberado no Myspace (http://www.myspace.com/inocentes) da faixa Rota de Colisão, que tocou um tempo na rádio Brasil 2000 FM. O lançamento do DVD adiou isso tudo? O que vocês tem preparado?Na verdade a gente lançou o single, sem muito compromisso em fazer o disco cheio, hoje em dia nem sei se precisa de CD com 14 faixas, os modelos mudaram, eu queria lançar um site com as músicas e só, mas ainda não tinha as músicas e estava cheio de dúvidas em relação ao modelo, por isso o DVD tomou a dianteira. Hoje em dia, você acha que ainda vale a pena a banda se esforçar para lançar um CD? Ou vale mais a pena disponibilizar o trabalho de graça na internet e depois correr atrás de fazer shows? Você participou do lançamento do último álbum da Plebe Rude, independente, que foi lançado por um preço honestíssimo, bem produzido, com capa, encarte, caixinha, ainda acompanhado de uma revista bacana (Outra Coisa), e, mesmo assim, menos de uma semana depois, o disco estava disponibilizado na internet para qualquer um downloadear. Qual sua opinião sobre isso tudo?Acho que a relação com a música mudou, eu sou da época, que se comprava um disco ia para casa ligava para os amigos e todo mundo ia lá ouvir o disco de cabo a rabo, hoje não é mais assim o cara baixa as músicas, não importa álbum, sequência nada disso importa mais. E ninguém parece disposto a pagar por isso, os CDs são bacanas, mas a tendência é morrerem mesmo e os artistas tem que se adaptar, pois os shows ainda são importantes. E por falar em Plebe Rude, primeiro, me conte como foi o convite e como é fazer parte de uma das principais bandas de Brasília? E continuando... Sei que está programada a gravação de um DVD ao vivo, na Ceilândia - DF, o que mais está rolando? Planos de disco de inéditas? O sucessor de R ao Contrário virá?Sou amigos deles desde que eles vieram a São Paulo pela primeira vez, junto com o Legião para tocar no Napalm a casa que eu trabalhava, isso foi em 1983, e sempre gostei da Plebe, era banda irmã. Quando reencontrei o Philippe num tributo ao Clash ele me ligou dias depois fazendo o convite, confesso que titubiei, pois não sou acostumado a esse lance de ter várias bandas, mas agora tenho certeza que fiz a escolha certa, é um prazer enorme tocar na Plebe. Estamos preparando o DVD, que vai ser gravado em Ceilândia, por ser uma cidade satélite, pobre e por isso vai ser lá em show gratuito para a galera que curti a Plebe. Quanto ao disco de inéditas é claro que vai vir mas por enquanto estamos nos concentrando no DVD. Temos uma versão da música "A Ida" em inglês que vai estar na trilha sonora de um filme chamado "Federal" que tem o Selton Mello como ator, tem um monte de coisa rolando.

Para quem conhece Clemente Nascimento, sabe que o cara não para: Inocentes e Plebe Rude são o lado famoso, pop star, mas além disso, no palco, temos Combat Rock (que tem status de super-banda punk), Jack & Fancy e 'brincadeiras' eventuais que você organiza, como Pagode Nuclear (com João Gordo), Roda de Rock (imitação rockeira de uma roda de samba) e até rock com campeonato de botão. O que você pode nos falar sobre todos estes projetos?A necessidade faz o ladrão (risos)! Poxa, o Jack&Fancy foi a forma encontrada de mostrar composições que não fariam parte do repertório das outras bandas, experimentar novas texturas, novas parcerias, com a Sandra Coutinho, das Mercenárias. Já o Combat Rock é pura diversão. Fazer um Tributo ao Clash é muito divertido, mas está virando coisa séria pois a banda formada por Mingau (Ultraje) no baixo, Redson (Cólera), Ari (365) e Alonso (Marsh Gas) é muito competente e toda hora é chamada para alguns projetos. Fizemos o Rock 40 Graus, no SESC Santo André, e foi demais, com vários convidados e convidadas, tocamos de Sérgio Sampaio a Blondie e todo mundo se divertiu muito. É que gosto desses desafios; o próximo é um projeto para o dia dos namorados, no SESC Pompéia. [a entrevista foi feita no início de junho] E como o cara é incansável, nos fale também sobre seu trabalho no Showlivre.Com.No Showlivre, assumo meu lado corporativo (risos)! Bem, sou apresentador no Showlivre, apresento dois programas, o Pé na Porta, um programa de entrevistas onde eu "invado" o espaço do entrevistado, e o Estúdio Showlivre, onde as bandas vem se apresentar ao vivo. Comecei no Musikaos, na TV Cultura, e nunca mais parei, mas também produzo shows, trabalhei na Virada Cultural de 2009 como músico e produtor. Além de compor, tocar, produzir, dirigir, ainda temos a oportunidade de ver Clemente comandando as pick-ups em baladas rock and roll. Quem for numa balada discotecada por você pode esperar ouvir o que?É, ainda sou DJ, no Vegas, no Unique, Astronete, CB e viajo, as próximas vão ser em Salvador e em Brasília. Se eu não tivesse três filhos talvez trabalhasse menos (risos)! Sou bastante "eclético" nas pistas, toco conforme o público, mas é sempre rock, passando pelos estilos que curto, como ska e rap, isso é muito pouco mas, toco rock de todas as épocas de 1950 a 2009, sem distinção de gênero, eu tenho que gostar e a música ser boa para a pista, portanto não se assuste se depois do Motörhead rolar uma do Tony Campello. Por falar em ouvir, o que o Clemente anda ouvindo? Quais suas sugestões de bandas nacionais e gringas?Putz, ouço tanta coisa, por causa da profissão de produtor, que não saberia te dizer o que estou ouvindo curtindo (risos)! Faz tempo que não pego um CD para ouvir só por prazer, faz um mês ouvi uns vinis velhos meus, como o primeiro do Dead Boys, o primeiro do Cramps, o Rain Dogs, do Tom Waits, e o Panis Et Circenses com Mutantes, Gil, Caetano e coisa e tal. Agora sugestões... Hummmm, realmente não sei, se eu falar de um cara que faz pós MPB os punks vão me matar (risos)! É isso aí, deixe um recado para a galera que curte seu som e te segue nesses anos todos!Sou ruim de recado, mas estamos na área, sem saudosismos, melhores do que nunca!http://www.myspace.com/inocentes

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